sábado, 5 de abril de 2008


rio Teixeira, verão 2005

correio da manhã

Chegados à aldeia mais próxima da quinta, para voltar para Lisboa, fomos ao café local. O homem do balcão disse que o nome da sua aldeia aparecia na contracapa do Correio da Manhã do dia anterior. Olhei para o jornal. Em letras gordas "ESCOTEIRO RESGATADO". Nem podia acreditar. Li a notícia com mais atenção. Curiosamente, parte do texto tinha factos verdadeiros. "O jovem, de nome Tomás, atrasou-se e perdeu contacto com os companheiros." Não sou escoteiro. Não me atrasei em relação ao grupo. Também não estava na margem sul do rio Teixeira. Quantas vezes somos enganados pelos imparcias meios de comunicação social?
Pedi para levar a folha. Afinal, aquela era a única prova.

terça-feira, 1 de abril de 2008

no mato


A quinta de S. Francisco fica na Serra da Freita, um sítio idílico, onde se ouve o correr das águas cristalinas e o vento a soprar na floresta... Mas está longe de tudo. Demoramos 4 horas de camioneta até Oliveira de Frades e ainda temos de sujar as botas a partir da aldeia mais próxima.
Uma noite mal dormida na tenda, com o Carlos, o João, o Teles e o Rodrigo, em que a chuva não parou de cair e, todos ensopados, pusémo-nos a caminhar na manhã seguinte. Com o
Miguel à frente subimos montanhas, descemos vales e saltamos rios o dia inteiro. Sempre gostei de emoções fortes.
Estávamos quase a chegar à quinta, num desfiladeiro, a Garganta do Diabo, quando nos vimos obrigados a tomar banho no rio gelado para seguir, pois as margens eram escarpadas. O médico tinha-me proibido de o fazer e levava comigo documentos, telemóvel, mp3,... Avisei alguns adultos que ia por um atalho, mas eles não gostaram da ideia, não dizendo que não... O pessoal começou a passar-me os telemóveis, como se eu fosse tábua da salvação.
Comecei a trepar. Um passo em falso ou uma pedra escorregadia significavam uma queda brutal. Mas cheguei lá acima e vi... mato, sem trilhos, só espinhos. Sorri: meia dúzia de metros e havia de encontrar descida para o rio, a jusante do desfiladeiro. mas andei e andei e só encontrei espinhos e escarpas. O rio era todo ele escarpado. Berrei mas ninguém me ouvia por causa do som intenso da água furiosa. Tentei arranjar caminho para a quinta pela montanha, mas o mato era muito denso, ou a montanha era demasiado escarpada. Só quem conhecesse aquilo é que sairia dali. Durante as duas horas de dia que me sobraram subi e desci o monte para me mentalizar de que a saída era realmente impossível sem catana ou corda.
Não tinha sequer lanterna, e aproximando-se o anoitecer mantive a cabeça fria e procurei um sítio estratégico. Fiquei sentado a mais de 50 metros de altura em relação ao rio, num sítio donde via a quinta, o rio que a banha (rio Teixeira) e o seu vale, tal como o vale do seu afluente, com a Garganta do Diabo. Dali podia ver tudo (estava a ver a quinta, a fogueira e a ouvir palmas e canções, mas eles não tinham rede no telemóvel e não me viam nem me ouviam) e ser visto em caso de buscas. Mas, acima de tudo: um dos telemóveis tinha rede. Telefonei aos bombeiros e à mãe. Disse:
- Olá mãe! Tudo bem? Sim, sim. Mas olha, não entres em pânico: estou só, num monte de onde não consigo sair. Chama os bombeiros. Diz que estou na margem norte do rio Teixeira a 50 metros da água e a oeste de... e a sul de...
-Filho!
Passados 5 minutos...
- Olá... disse-lhes que estavas a norte de rio Vouga...
- Não, isso esta a mais de 10 km! Emenda lá isso!
Telefonara à mãe para tornar o pedido de salvamento mais verosímil.
Passados dez minutos, barulho e luz das sirenes no silêncio e no escuro da serra. Maravilha!Chegam ao sítio da estrada que, no outro lado do vale está à minha frente e recebo telefonemas:
- Bombeiros voluntários de Olibeira de Fradj, boa noite! Esteja calmo. Diga quando a luz do holofote estiver apontada para si.
- Mais à vossa esquerda...- e eles rodavam o foco 180º.
- Ah... Não, não, para a direita...- e eles rodavam o foco 180º no lado oposto.
- Não percebo... Em que é que ficamos? - Ficámos assim uns minutos.
Vejo umas luzes a subir o monte
- Não é para aí, pa! - ouvem-se os bombeiros. Vejo outra luz apontada para mim e oiço o grito do Miguel. Vinha-me salvar. Que alívio! Com ele desço o monte pelo único caminho possível: um trilho dos javalis entre as escarpas. O Miguel apontou a luz para uma poça e pude beber água fresca... olho para baixo e vejo um peixe.
Entrei na quinta vindo do rio, com os bombeiros sempre à minha volta:
- O menino está bom, não tem ferimentos? Não precisa de uma corda para não cair? Não precisa de ajuda para andar? - Mesmo assim não pude deixar de saborear aquele momento que me parecia tão surreal. Tinha desobedecido, mas mesmo assim receberam-me bem. Já não havia fogueira nem palmas nem canções. Tinham todos ido para a tenda. Os adultos quiseram ouvir a minha história, e sabia que teria de a repetir 50 vezes no dia seguinte. Os bombeiros e os policias amigaveis que la estavam pediram-me os documentos. Estava preto de tanta terra e la tinha o BI todo direitinho! Depois foi só assinar documentos e atender chamadas da Protecção Civil de Viseu ou algo parecido.
Depois foi só comer. Banho de água quente e uma noite tranquila numa tenda acolhedora...